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Níveis elevados de CO2 durante a eclosão: um mito derrubado

Por muitos anos, níveis elevados de CO2 no final do período de incubação foram considerados nocivos para o desenvolvimento do embrião da ave. Isso, porém, é um mito que está muito distante da realidade. Em circunstâncias naturais, o nível de CO2 medido no microambiente debaixo da galinha atinge pelo menos 0,4% ou 4.000 ppm, muitas vezes superando esse valor. Isso representa 10 vezes o nível normal de CO2 no ar externo. Na realidade, ao se sentar sobre os ovos, a ave mãe corta a corrente de ar em torno deles para criar um ambiente protegido para que os embriões possam se desenvolver nas melhores condições possíveis. Com a intenção de entender melhor esse processo, a Petersime decidiu determinar os níveis ideais de CO2 durante a eclosão e o momento correto para aumentá-los. 

Por Bruno Machado e Eduardo Romanini, Especialistas em Incubação – Pesquisa e Desenvolvimento

Três níveis essenciais

Há tempos sabe-se que, em incubatórios, obtêm-se pintinhos saudáveis por meio do domínio e controle de três níveis essenciais, na seguinte ordem:

  1. Temperatura: o parâmetro ambiental mais importante, pois qualquer pequeno aumento ou diminuição pode afetar seriamente o desenvolvimento embrionário, a eclodibilidade e o desempenho pós-nascimento.
  2. Níveis de CO2 e O2: afetam o desenvolvimento do sistema cardiovascular do embrião e, portanto, a respiração.
  3. Nível de umidade do ar em torno dos ovos: determina a taxa de perda de água dos ovos e, em decorrência disso, a de perda de peso.

Alterações fundamentais a partir do dia 18

Diversos estudos confirmaram que ocorrem alterações drásticas no pintinho, tanto física quanto fisiologicamente, a partir do 18º dia do período de incubação. A alteração mais relevante ocorre quando a bicagem interna é iniciada; é quando a membrana interna da casca do ovo é perfurada, dando acesso à câmara de ar. Depois disso, ocorre a bicagem externa, que continua até que o pintinho saia completamente da casca. O processo todo é a transição do fluido para o seco.

Essencialmente, os níveis de O2 e CO2 na câmara de ar do ovo se alteram à medida que o embrião começa a adotar trocas gasosas convectivas ao inflar os pulmões; em outras palavras, ao respirar. Estudos anteriores indicam que o nível de O2 diminui para aproximadamente 14,2%, enquanto a concentração de CO2 aumenta para cerca de 5,6%. Alguns podem considerar esses níveis excessivos e, portanto, prejudiciais para o embrião, assim como seriam para os seres humanos, mas isso não ocorre com as aves, que têm capacidade respiratória adicional por um determinado período. De fato, por cerca de 24 horas após o início da bicagem interna, o embrião usa os sistemas de respiração vascular e pulmonar ao mesmo tempo para respirar (ver imagem), resultando em uma captação combinada de O2 e, portanto, na melhoria da capacidade respiratória.

Evolução respiratória de um pintinho

Diferentes níveis de CO2 – um teste prático

As evidências científicas, juntamente com observações práticas em incubatórios comerciais, confirmam que uma maior concentração controlada de CO2, mesmo acima de 1% (10.000 ppm), entre as fases de bicagem e a de eclosão acabam resultando em uma janela de nascimento mais estreita, sem afetar negativamente a qualidade e a saúde dos pintinhos. Na verdade, é melhor ter uma janela estreita como essa, pois ela resulta em pintinhos de um dia mais uniformes, além de crescimento e processamento mais eficientes de pintinhos no futuro.

Em parceria com um grande e moderno incubatório comercial do Brasil (a LAR Cooperativa Agroindustrial, que produz cerca de 350.000 pintinhos por dia) e com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (Brasil), a Petersime investigou os efeitos de níveis mais altos e mais baixos de CO2 no nascedouro: 0,45% (4.500 ppm) e 0,80% (8.000 ppm).

Ao todo, 320 pintinhos foram submetidos a diferentes níveis de CO2 desde a bicagem interna (que pode ser detectada automaticamente pela tecnologia Synchro-Hatch™ da Petersime) até a eclosão, por um máximo de 24 horas. Foram coletadas amostras de sangue para verificar a saúde e a força deles.

Entre os diversos parâmetros sanguíneos analisados, observaram-se duas medições em especial:

  • A quantidade de heterófilos (anticorpos que circulam no sangue)
  • O nível de linfócitos (um tipo de célula imunológica)

Também verificamos a H:L (razão entre heterófilos e linfócitos) de todas as amostras de sangue (ver tabela).

Os resultados (e seu significado)

Os resultados do experimento mostraram que há quase três vezes mais heterófilos quando os níveis de CO2 estão em 0,45% (4.500 ppm) em comparação a 0,80% (8.000 ppm).

Os cientistas já sabem há bastante tempo que uma contagem mais alta de heterófilos, basicamente parte de uma resposta imunológica inata, indica uma capacidade menor de combater processos inflamatórios e estresse. 

Os níveis de linfócitos, por sua vez, são excelentes marcadores para avaliar a imunocompetência das aves (ou seja, a capacidade de prevenir ou controlar infecções por patógenos e parasitas). Essencialmente, a maior contagem de linfócitos a 0,80% de CO2 indica uma melhor resposta do sistema imunológico. Em suma, é bem mais provável que os pintinhos sujeitos a um nível mais alto de CO2 sejam mais robustos e tenham maior capacidade de combater doenças.

A razão entre heterófilos e linfócitos (H:L) é um bom parâmetro para medir o grau de estresse em pintinhos. O estudo da Petersime mostra que níveis de CO2 a 0,45% (4.500 ppm) resultam em uma H:L de 0,27 (estresse intermediário), enquanto níveis de CO2 a 0,80% resultam em uma H:L de 0,08 (baixo estresse). Essas descobertas sugerem que é natural que as aves sofram uma certa quantidade de estímulos de CO2 durante a eclosão por um curto período e que, ao contrário do que alguns acreditam, elas até se beneficiam dos níveis elevados de CO2 em determinados estágios.

Razões H:L — o que significam esses números?

  • < 0,20: baixo estresse
  • 0,20 a 0,50: estresse intermediário
  • >= 0,80: alto estresse

A verdade sobre os níveis de CO2 durante a eclosão

Tem-se sugerido que um nível maior de CO2 durante a eclosão causa estresse e força a eclosão. Pesquisas mostram que a alteração dos níveis de CO2 é, na verdade, um estímulo positivo; um mito persistente finalmente derrubado. O nível correto de CO2 no momento certo, portanto, ajuda o embrião a passar da respiração corioalantoica para a ventilação exclusivamente pulmonar, exatamente como ocorre na natureza. E os benefícios também foram confirmados pelos resultados do desempenho de eclosão: com +0,50% de eclosão de ovos férteis para os ovos expostos a 0,80% de CO2.